Maio de 2009 - João Pessoa – PB
A decisão já foi tomada.
Encontro-me hoje num verdadeiro caos de sentimentos, sabendo que uma forte transição está por vir. É preciso muito trabalho para lidar com o desapego das amizades. Flagro-me em constantes surtos de tremedeira, um estágio avançado do desequilíbrio que passo conscientemente.
Se me concentro no futuro, vejo os mesmos medos que me cercaram nos períodos de solidão e imagino que bastará um descuido para que eles se fortaleçam. Afinal, não haverá mais um lar. Por outro lado, a agitação que vivo no coração é um claro sinal de que precisava tomar um rumo, fazer escolhas.
É difícil imaginar os amigos sendo deixados para trás e saber que eles continuarão vivendo grandes momentos juntos, construindo suas histórias lado a lado. Sinto que fui mais forte antes, com menos medo e mais confiante na minha missão.
Com todo esse nervosismo, mal me reconheço…
Também sinto a distância do mundo espiritual e quando reflito, vejo que passei um período solto. Estava despreocupado em ser corrompido pelo mundo. Calei um pouco da essência em que sempre acreditei e deixei-me levar.
Mas não posso perder mais tempo.
Trecho do livro “Vida Nômade: Liberdade, Desapego e Aventura”As emoções estavam à flor da pele na contagem regressiva para grande viagem. Eu com meus 23 anos e a América do Sul pela frente, tomado por emoções de todos os gêneros. Afinal, não é sempre que nos programamos para encontrar o inesperado. A região norte do Brasil ainda era um completo mistério para mim. E todos aqueles países andinos? Eu conseguiria falar espanhol de maneira a ser entendido? Sabia que um grande desafio estava vindo, ou talvez dois, três, como saber? Mas na ansiedade da véspera tudo o que eu mais queria era encerrar a organização e começar a viajar de uma vez.
Mas as coisas para resolver iam aparecendo uma atrás da outra. Passaporte, vacina contra febre amarela, entrega do apartamento alugado, venda dos móveis e outras tantas tranqueiras que nem me lembro.
Depois de quase tudo pronto, hospedei-me na casa do meu amigo Juninho e colocava tudo em cima da moto para fazer alguns testes antes de pegar a estrada, várias vezes. Era tanta coisa para levar e tão pouco espaço para encaixar tudo! Materiais de camping, ferramentas, roupas, câmera, computador, mapas aos montes. A foto abaixo foi tirada dois dias antes de partir.

Moto equipada para começar
Nesse baú de entregador de pizza eu colocava quase tudo. Por fora somente uma mochila com a barraca, isolante térmico e saco de dormir. Os galões brancos, ao lado, levavam 5 litros de gasolina cada (que me salvaram muitas vezes). Não poderia faltar super jaqueta de couro herdada do meu pai, devidamente batizada com milhares de quilômetros de suas aventuras. Essa jaqueta foi extremamente útil para quedas ou para o vento, mas quase me matou congelado no frio das montanhas da Cordilheira dos Andes.
Assim, após o almoço do dia 15 de junho de 2009, disse adeus aos meus amigos, subi na moto e assisti pelo retrovisor a cidade de João Pessoa ficando pouco a pouco para trás. Quem me dera um dia saber descrever aquele momento. Tudo se misturando com tanta intensidade. Saudade das pessoas que acabara de deixar, adrenalina, nervosismo, lembranças das viagens anteriores. Dúvidas? Tantas!
Revivendo alguns trechos da época: http://robisonportioli.blogspot.com/2009/06/viagem-no-tempo.html
Ao menos àquela estrada eu estava habituado. Nem sei dizer quantas vezes havia viajado de João Pessoa para Natal, mas confesso que para essas primeiras horas, saber o que tinha após as curvas dos próximos quilômetros foi uma pitada de conforto.
Nem cheguei a registrar fotos desse dia, talvez uma ou outra perdida em algum lugar. Mas achei esse vídeo gravado num pequeno congestionamento, causado se não me engano pela duplicação da BR101.
Cinco meses depois, quando estava quase chegando novamente ao Brasil, mas ainda em território boliviano, gravei esse vídeo. após fazer o trecho de Santa Cruz de la Sierra até próximo a Corumbá – MS. A sujeira e a aparência retratam bem quão intenso foi esse trecho.

Anjos de uma expedição 4x4 que me ajudaram na Bolívia.
Se a aparência após todos esses quilômetros havia mudado radicalmente, no campo das ideias a coisa não estava tão diferente. Quando paro para pensar sobre medos do antes e depois, vejo que muitos deles eram baseados em mitos, imaginação. Vejo que não existia um desafio mortal após cada curva, e que em muitas delas havia apenas a extensão do horizonte. Quanto àqueles perigos reais, só me fortaleceram. Agora sei bem como lidar com eles e até posso fazê-lo confiante. Talvez isso seja um dos principais pontos positivos da chamada “experiência de viagem”. Ultrapassar o limite da própria visão é sempre crescimento. =)




























